SIGNIFICADO DAS CAPAS DOS ÁLBUNS
A ideia do ditado popular que diz que
“não se julga um livro pela capa” pode valer para discos também. No entanto,
seja em qualquer tipo de produto, é difícil ignorar o apelo de um bom design,
ilustração ou fotografia que indique ao consumidor o que pode vir naquela obra
e, assim, o instigue a consumi-la.
Há capas tão criativas e originais que
há nove anos foi criado o prêmio Art Vinyl para valorizar o trabalho artístico
das capas de disco de vinil. O organizador e criador do prêmio é o inglês
Andrew Heeps. Segundo ele, “o prêmio Art Vinyl trata de comemorar a ressonância
emocional dos melhores desenhos de capa e homenagear alguns dos heróis
desconhecidos da arte e do design, que oferecem identidade visual para tantas
bandas e artistas".
As capas de disco contribuem para a
construção de um sentido musical, enriquecendo o processo estético. Os anos 60’
foram essenciais para firmar a capa como elemento primordial para o disco. Foi
quando artistas plásticos e fotógrafos penetraram no mercado das gravadoras,
vendendo seus talentos e experimentando concepções visuais inovadoras.
Houve uma tomada de consciência da
importância dos discos e das capas como icônicas. Contudo, geralmente eles são
inseridos na história da música menos por sua visualidade que por sua
sonoridade, ainda que haja reconhecimento estético. Uma vez que se entende o
álbum como a junção disco e invólucro, contendo texto e imagem, fica evidente
que, a partir dos anos 1950, abriram-se caminhos para pensá-lo como uma
possibilidade de forma artística total da contemporaneidade.
A capa de disco é tão importante
quanto o próprio disco – ou, melhor dizendo, não é possível, em muitos casos,
separar um do outro. A capa é um campo que não só reflete a visualidade de cada
época, como também provoca, por meio de seus projetos gráficos, leituras
culturais de um dado momento na carreira do artista.
Por isso, é importante voltar às capas
do passado, para tentar entender o seu lugar em nossa cultura visual e musical.
- Achtung Baby (1991)
Steve Averill considera Achtung Baby
sua capa favorita em parceria com a banda - foi filmada em vários países
diferentes e usou imagens coloridas, para contrastar com as fotos em preto e
branco das capas anteriores.
Ele diz que nessa época a banda estava
preocupada com sua imagem pública:
“As pessoas achavam que a banda era
tola e séria, e queríamos mudar isso. Sempre quisemos que a capa
refletisse a música interna. A forma como trabalhamos depende do álbum. Às
vezes, a banda é muito clara sobre o que quer fazer, caso contrário, ouvimos a
música e trabalhamos nos conceitos. É sempre bom trabalhar com
eles. Sempre há muito humor, muita intensidade”.
A capa de Achtung Baby foi
feita por Steve Averill e Shaughn McGrath, que tinham criado a maioria das
capas do U2. Para mostrar a mudança de estilo musical, a banda queria algo
com várias imagens e diferentes cores para contrastar com o ambiente e
principalmente o uso de imagens monocromáticas dos álbuns
anteriores. Esboços e desenhos foram montados desde o início das sessões e
alguns projetos experimentais foram concebidos para se assemelharem, como
Averill explica:
"A música dance orienta
a capa. Acabamos de fazê-la, com o objetivo de explorar seu extremo. Poderíamos
ter nos contentado com o que tínhamos, mas se não tivéssemos feito o que
fizemos, não teríamos chegado à capa que é agora".
Foram realizados vários ensaios
fotográficos com Anton Corbij em Berlim, no final de 1990. A
maioria das fotos foi em preto e branco e o grupo sentia que não era
um indicativo de novidade. Eles encarregaram Corbijn para uma sessão de
fotos por um período de duas semanas em Tenerife, em fevereiro de 1991,
para se misturarem com a multidão no Carnaval de Santa Cruz, apresentando
um lado mais descontraído de si mesmos. Foi, durante este período e
durante sua passagem no Marrocos, que o grupo realizou as fotografias, com
adições realizadas em Dublin. As fotos foram destinadas a confundir as
expectativas do grupo, contrastando com a monocromia dos outros discos.
A princípio, cogitaram incluir três
imagens como capa: uma vaca em uma fazenda em County Kildare, na Irlanda; a
imagem do baixista, Adam Clayton, despido; e a banda dentro de
um trabant. Entretanto, um sistema de múltiplas imagens foi
empregado, chegando à conclusão que não poderiam concordar com nenhuma das
opções.
As expressões dos integrantes estavam
em sua melhor versão de 'alter-ego', tendo várias perspectivas, de acordo com o
ângulo da imagem. Com isso, o resultado acabou sendo uma montagem de
várias fotos. Uma espécie de quebra-cabeça, realizado por Corbijn, já que
a banda queria manter um toque europeu mais reservado, principalmente nas
imagens monocromáticas em Berlim com aspectos exóticos e sombrios, e com cores
mais vibrantes como em Santa Cruz e Marrocos.
Algumas foram incluídas por questões
pessoais, enquanto outras por transmitir ambiguidade. Fotos coloridas no
interior do trabant também foram incluídas na capa e encarte. Mais
tarde, esse modelo de carro foi incorporado ao cenário da turnê, como parte do
sistema de iluminação. A nudez do baixista foi inserida na contracapa do
álbum.
O termo em alemão, achtung, é
traduzido em português como "atenção" ou "cuidado". O
engenheiro de áudio Joe O'Herlihy, usou as palavras "achtung, baby"
durante as gravações, sendo supostamente tiradas de uma frase do filme The
Producers (1968). O título foi escolhido em agosto de 1991, no final
das sessões. De acordo com Bono, foi um título ideal, cujo objetivo era
chamar a atenção e referenciar a Alemanha, dando a entender qualquer tipo de
romance ou renascimento — sendo que ambas foram temas do álbum.
Na época o U2 considerou vários
títulos: Man, 69, Zoo Station ou até
mesmo Adam. Outros possíveis nomes seriam Fear of
Women e Cruise Down Main Street, fazendo referência a Exile on
Main St. (1972), dos Rolling Stones, e aos mísseis lançados
em Bagdá durante a Guerra do Golfo. A maioria dos títulos
propostos foram rejeitados, com a crença de que o público interpretaria de
forma pretensiosa e soaria como "mais uma declaração presunçosa da banda".
Fotografia: de Anton Corbijn.
Designer: Steve Averill e Shaughn McGrath - Works Associates (Dublin).
Ilustração:
Charlie Whisker, fotografado por Richie Smith.





























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